segunda-feira, 6 de junho de 2016

Memória, religião e conhecimento

Para mim, um tema central é a memória, que abordei inclusive no meu TCC. Até agora, porém, tenho tratado o assunto a partir do aspecto verbal, linguístico e imagético, ou seja, para desenvolver a linguagem pessoal é importante o estudante enriquecer a sua memória com poemas e outros textos mais e, para ampliar a imaginação, é preciso ver muitas imagens, seguindo aquele célebre pensamento de Leibniz muitas vezes repetido pelo professor Olavo de Carvalho, que o homem que visse a maior quantidade de figurinhas se tornaria o mais inteligente. Entretanto, a memória e o esquecimento são temas importantíssimos das antigas religiões, como o budismo. Lembrar-se da origem é libertar-se, esquecer-se dela é escravizar-se. É possível que as concepções do estudo, na China, que segundo Paul Monroe era de recapitulação, em que a educação consistia predominantemente em memorizar os livros sagrados, o suprassumo da sua Literatura, no Egito, até mesmo em Israel e em outros lugares, se fundamente nessa base religiosa, de modo que a educação é um meio de fazer o indivíduo lembrar o que é de fato importante, para libertar-se da ignorância, para vencer o esquecimento, que é a condição natural desta vida. Se, como mostrou o Mário Ferreira dos Santos no seu livro "Filosofias da afirmação e da negação", Pitágoras, Platão e Aristóteles criam que o conhecimento é uma espécie de rememoração daquilo que está já presente na alma, mas está esquecido, sendo lembrado a partir dos dados dos sentidos, então a condição humana é de esquecimento desde quando nasce e é preciso, através dos estudos, relembrar. Para encarar a educação sob esse aspecto não é preciso aceitar a crença de que o conhecimento traz a salvação do homem, como o gnosticismo afirma. Não sei também o quanto a visão cristã se harmoniza, nesse aspecto, com a de outras religiões. 
Sei que neste texto podem ter muitos subentendidos, que exigem mais tempo para ser explicitados. Por isso, estou apenas registrando o pensamento para futuro desenvolvimento possível.

O livro, uma partitura a ser executada

Todo livro é como uma partitura a ser executada. Em dois sentidos, pois nós precisamos de realizar o seu conteúdo na nossa imaginação para o compreendermos, caminhando dos conceitos expressos até as experiências reais ou análogas que proporcionaram ao autor escrevê-lo, e porque todo livro encerra em si a potência sonora das palavras que o compõem, ou seja, todo livro pode ser lido em voz alta. É de admirar que as pessoas, no geral, nunca atinem com esse aspecto, fazendo leituras sempre em silêncio, não chegando a desconfiar que a obra que está em suas mãos é um mundo de sons a ser atualizado.

sexta-feira, 3 de junho de 2016

A palavra, instrumento de trabalho do poeta

Dizzy Gillespie pintado por Leonid Afremov

O poeta lida com a palavra, ela é o seu instrumento de trabalho, mas a poesia não é apenas uma combinação de vocábulos, de frases, de estrofes, de sons de um modo geral; ela é a manifestação do mundo, da realidade, da estância espiritual na arte. O poeta, como o pintor, tenta verter a vida real para a obra de arte, congelando as imagens, as impressões, para torná-las o mais duradouras possível, como um escultor, que talha na pedra a beleza de uma jovem, no intuito de eternizá-la o quanto possível. O original envelhece, perde as formas, mas a estátua fica. Entretanto, o poeta não é um criador de ídolos, feitos para serem adorados enquanto objetos sem vida. O poeta tenta criar janelas permanentes, por onde as inteligências acessem o mundo espiritual ou, dito de modo mais direto, ele tenta criar símbolos para enriquecerem nossa imaginação e alimentarem nossa inteligência. Para tanto, ele precisa estudar e ter contato com coisas que não são poesia, nem são palavra, como pinturas, músicas e, evidentemente, a realidade.

Para fazer uma comparação, um músico (digamos um Dizzy Gillespie, um Victor Wooten, um B. B. King) se tornou grande porque treinou muito, estudou muito o seu instrumento, procurando descobrir novas maneiras de executá-lo e tirar dele os sons possíveis, e novas combinações. Ele teve que estudar, e as informações, os conhecimentos, não são materiais, não são sons, eles são espirituais. Analogicamente, o poeta precisa estudar muito, buscando novas formas de dizer, novas combinações de palavras, porém não pelas combinações em si, mas pelos efeitos espirituais que a sua poesia poderá causar.

sexta-feira, 27 de maio de 2016

A palavra, uma organizadora da alma

Na postagem passada eu falei da palavra como guia para a selva escura, ou seja, como um instrumento para lançar luz sobre ideias e pensamentos que permanecem no escuro, na confusão e na indeterminação da mente, quando a palavra não é usada para iluminá-los. Seguindo a mesma linha, quero falar agora sobre a palavra como organizadora da alma. Alguns podem não se sentir muito à vontade com esse termo “alma”, porque vários obstáculos, várias dúvidas, foram postos no pensamento das pessoas pela cultura materialista moderna. Caso haja essa dificuldade, bastará encarar o termo “alma” como “mente” ou “inteligência”.
O que seria organizar a alma através da palavra? Seria dar distinção a cada ideia, desfazendo confusões, misturas, sobreposições, dando nitidez a cada pensamento, bom delineamento, de modo a torná-lo mais visualizável e manuseável, de modo a poder ser dito e compartilhado com outros. Distinguir as ideias, clarificá-las, colocar as semelhantes próximas umas às outras, percebendo ligações importantes. Isso é organizar a alma.
Ideias sobrepostas, misturadas, mal delineadas geram confusão, desorientação e desconforto. A palavra vem como um instrumento para ordená-las, classificando-as e distinguindo-as.
Pessoas que têm uma quantidade muito exígua de ideias em sua mente podem não sentir esse desconforto de que estou falando, porque não se esforçaram para absorver ideias novas, pensamentos diversos de fontes heterogêneas, como as provenientes de outras culturas. Essas pessoas ficam circulando naquele estreito circuito conhecido, já tantas vezes trilhado, absorvendo, uma vez ou outra, alguma pequena ideia nova que não causa muito impacto no conjunto.
Por outro lado, aqueles que estão se dedicando intensamente aos estudos, procurando conhecimento em todas as fontes, ainda nas mais distantes, dia após dia, contínua, incansável e afanosamente, terão de enfrentar o desconforto de muitas ideias misturadas e sobrepostas e precisarão de maneira ininterrupta de usar a palavra como meio de organizar os seus pensamentos, classificando-os e ordenando-os.

Quem, por exemplo, decide ir além das fronteiras ocidentais da cultura e absorver as estruturas de pensamento orientais ou de outros grupos estranhos a nós, como os do extremo norte da Europa, com suas músicas e baladas medievais, certamente sentirá o impacto das grandes diferenças e visões de mundo, absorvendo símbolos novos que, por serem vistos por alguém alheio ao sistema cultural completo, poderão ser erroneamente interpretados ou pelo menos mal compreendidos pela imprecisão da visão. Isso gerará a confusão de que falei acima e exigirá o esforço ordenador, clarificador e classificador feito através da palavra. Por isso, escrever sempre num caderno ou expor oralmente a outros as novas ideias absorvidas é muito proveitoso para o estudante. 

quarta-feira, 25 de maio de 2016

A palavra, um guia para a selva escura

Expor cada pensamento num texto organizado é ir caminhando pelos recantos obscuros da alma e lançando luz neles, de modo a poder enxergar-se melhor, ampliando a autoconsciência. Quando não dizemos para nós mesmos o que vimos, os pensamentos e imagens que passaram pela nossa mente ficam depositados em cantos sombrios, podendo ser às vezes despertados de modo acidental, segundo às circunstâncias, mostrando-se não raro com a sua face deformada, como bêbados que se levantam de um sono para dormir novamente. Entretanto, quando usamos as palavras para dizer e investigar o nosso próprio mundo interior, este vai se tornando mais luminoso, organizado e conhecido, proporcionando que utilizemos cada idéia clara quando dela tivermos precisão e que vejamos a nós mesmos em plena luz do dia. A palavra é, pois, um instrumento de autoconhecimento e autoinvestigação, um guia para percorrermos as sendas escuras da alma, um fio condutor para atravessarmos a floresta penumbrosa. Por isso, é muitíssimo importante desenvolver a linguagem pessoal, aprendendo a se expressar com os clássicos da Literatura, uma vez que quem dispõe apenas da linguagem do meio imediato e da mídia só poderá percorrer os mesmos circuitos e estará preso às mesmas estradas já conhecidas, que, por não mostrarem a floresta como é, iludem o viajante sobre si mesmo.

segunda-feira, 23 de maio de 2016

Conhecimento humano e esquemas mentais

Na última postagem, eu fiz uma resenha breve sobre o livro "Filosofias da afirmação e da negação" do filósofo brasileiro Mário Ferreira dos Santos. Seguindo na mesma linha, quero desenvolver um pouco um tema contido no livro. É o seguinte:

O conhecimento humano é relativo ao ser humano, pois só podemos conhecer aquilo que é proporcionado aos nossos esquemas mentais, como os sons que estão dentro da nossa capacidade auditiva e as imagens que estão no espectro de vibrações captáveis pelos nossos olhos. Os objetos que estão fora do campo de apreensão dos nossos esquemas não podem ser conhecidos diretamente pelos sentidos.
Se em sentido amplo é assim, em sentido restrito também parece ser, isto é, se no que diz respeito às capacidades humanas totais de conhecer nós conhecemos apenas o que é proporcionado aos esquemas humanos, no campo do conhecimento individual deve também ser assim, pois uma criança, por exemplo, não é capaz de captar certas nuances de significado que um adulto bem alfabetizado capta. A criança ainda não tem os esquemas que proporcionariam a percepção, de modo que essas nuances não são percebidas por ela. Assim, pois, no que diz respeito aos esquemas adquiridos pela educação, a regra também é válida.

Nós mesmos, quando estudamos um assunto, vamos compreendendo aos poucos o tema e até mesmo os conteúdos de um livro de um grande autor. Não captamos tudo de uma vez, porque ainda não temos os esquemas necessários para isso, os quais serão adquiridos aos poucos após cada nova leitura, até que elementos outrora ocultos se revelem gradativamente a nós. Inversamente, quem já possuísse os esquemas mentais necessários, adquiridos através de outras leituras e outras experiências, apreenderia num relance todo o conteúdo. Por isso, quanto mais um estudioso desenvolve a sua linguagem pessoal e adquire conhecimento, mais facilmente ele compreenderá o que estuda, tendo dificuldades apenas com aqueles temas mais novos, para os quais ainda tem pouco aparato cognitivo.

Filosofias da Afirmação e da Negação de Mário Ferreira dos Santos: uma breve resenha

No livro “Filosofias da afirmação e da negação”, o Mário Ferreira dos Santos passa em revista algumas importantes correntes filosóficas, como o ceticismo, o relativismo, o idealismo, a fenomenologia, os pensamentos de Platão e Aristóteles, o de Kant, buscando sempre destacar o que há de positivo e o que há de negativo nelas, pois não há nenhuma linha de pensamento que não tenha algo de positivo para apresentar, uma vez que mesmo as filosofias mais negativistas se apoiam na positividade para argumentar e para existir, uma vez que, se elas existem, alguma coisa há e não um nada absoluto.
A obra do Mário se chama “Filosofias da afirmação e da negação” porque há filosofias que se firmam na positividade da afirmação, enquanto outras, como o ceticismo e o relativismo, se fundam sobre a negatividade e tendem à negação total. Entretanto, essas filosofias negativistas, que buscam o nada, essas filosofias niilistas, se contradizem fatalmente, pois dependem sempre de algo positivo, afirmativo, porque a afirmação precede à negação, o ser precede ao nada. A negação nega uma afirmação; não houvesse, portanto, afirmações, positividades, não haveria negações. Para o Mário, as filosofias afirmativas precisam ser preferidas, enquanto as negativistas devem ser rejeitadas, posto que seus frutos maus já são mais do que conhecidos e só levarão a mais barbárie e a uma degeneração ainda maior. O niilismo “profetizado” por Nietzsche avassalou o mundo no século XX, até onde o Mário pôde ver, e prometia mais destruições ainda, que nós estamos vendo hoje. Os corações se obscureceram e somente um retorno ao que é firme e positivo no pensamento humano poderia resolver o problema. Por isso, seria importante uma filosofia que absorvesse todos os pontos positivos de todas as filosofias durante a História, rejeitando o que elas possam ter de negativista.
Em sua obra, composta na forma de diálogos, o Mário Ferreira dos Santos refuta o ficcionalismo, que afirma que todas as convicções humanas e toda a realidade que conhecemos são ficções criadas por nós mesmos. Ele mostra que, embora as imagens da imaginação e os esquemas mentais humanos possam, de certo modo, ser encarados como uma ficção, essa ficção tem algo em comum com uma outra suposta ficção, que é o mundo exterior, de modo que nós podemos dizer que conhecemos esse mundo pelo menos em parte. O Mário está argumentando em hipótese, ele não está admitindo de fato que o mundo exterior seja uma ficção, salvo se o pusermos perante a Realidade Suprema, isto é, o Ser Supremo, que é o único que tem toda a Realidade em si. O Mário está apenas tomando o argumento de um ficcionalista e o passando por uma crítica implacável. O ficcionalismo não subsiste, tanto mais que ele não se encara como uma simples ficção, mas pretende que a sua afirmação de que tudo seja uma ficção corresponda à verdade, sendo o seu propugnador um homem que conhece o mundo real. Mas mesmo no ficcionalismo poderíamos encontrar algo de positivo e útil, como a dedução de que os nossos conteúdos mentais e mesmo o mundo exterior não têm sua razão em si mesmos, mas radicam no Ser Supremo, de modo que aqueles seriam de certo modo ficções, enquanto este é a Realidade.
O Mário faz o mesmo com o ceticismo e o relativismo, que, apesar de terem aspectos positivos, também não se sustentam. O relativismo, por exemplo, está certo ao afirmar que o conhecimento humano é relativo ao ser humano, ou seja, é proporcionado ao que o ser humano é capaz de conhecer, não sendo possível, portanto, que conheçamos aquelas coisas que não são proporcionadas ao nosso aparelho cognoscente. Por exemplo, há certas ondas sonoras que podemos ouvir, mas há outras, que estão acima ou abaixo de certa frequência, fora do nosso campo de captação, que não podemos captar, não nos sendo possível conhecê-las através da experiência auditiva, embora existam. Do mesmo modo com certos elementos visuais, que escapem às vibrações que nossos olhos podem perceber. Isso está certo. O erro é imaginar que nosso conhecimento jamais será seguro apenas porque não conhecemos tudo, pois o que conhecemos, conhecemos, e é objetivamente verdadeiro.
O idealismo não escapa da crítica do gigante brasileiro, assim como a fenomenologia, que é um modo pré-teorético de pensar. É excelente para descrever os fenômenos, mas, por um lado, numa de suas correntes, peca por dizer que não conhecemos os objetos em si, mas apenas as suas aparências fenomênicas, e, por outro, noutra vertente, erra ao desprezar a razão e afirmar que captamos imediatamente, pelos sentidos, a essência dos objetos, dispensando assim o trabalho da razão, a investigação, a análise, a abstração, sob a ideia de que a razão só cria falsidades. Para o Mário, nós captamos a aparência fenomênica dos objetos, mas somos capazes de penetrar em seu ser através do pensamento. A fenomenologia erra, de um lado, por negar o conhecimento real dos objetos e, de outro, por negar a validade da razão.
O Mário também aborda a diferença gnosiológica do pensamento de Platão e de Aristóteles, harmonizando-os. Aristóteles ensinava que o conhecimento se dá a partir dos sentidos, numa atividade em que o sujeito cognoscente apreende as imagens, os fantasmas, dos objetos e, através de abstrações de primeiro, segundo e terceiro graus, elabora conceitos e chega ao conhecimento de fato. Platão, por seu turno, falava das ideias que pré-existem ao ato de conhecer, ideias que estão fundadas no Ser e que são “anteriores” ao mundo material. Essas ideias, formas ou esquemas estão também esquecidas na mente humana, de modo que todo o ato de conhecer é um lembrar-se, um recordar; são ideias que, na linguagem poética de Platão, estão dormindo na mente humana. Se não fosse assim, não seria possível chegar ao conhecimento de nada, uma vez que para haver o conhecimento é necessário que haja uma semelhança entre o sujeito cognoscente e o objeto cognoscível. Se eles fossem absolutamente diferentes não haveria nenhum contato e não poderia haver assimilação, nenhuma conformação interior, não material, do sujeito com o objeto. Assim, existem, na mente humana, esquemas “a priori”, anteriores ao conhecimento. Se a cera, no pensamento aristotélico, é aquela que recebe as impressões de objetos exteriores, é preciso que essa cera já tenha a capacidade de receber essas impressões e ser modelada por elas; precisa, em suma, de ter uma estrutura capaz.
É verdade que Platão não usa o termo “a priori”, pois quem o utilizou foi Kant, mas eu o utilizei acima como um sinônimo de esquemas mentais pré-existentes necessários ao ato de conhecimento, sem os quais este seria impossível.  Usar esse termo não quer dizer que estou endossando o pensamento de que as ideias, as formas, os esquemas estão só na nossa mente e não no mundo real nem no Ser Supremo, pois elas estão na mente, na realidade e no Ser.

Desse modo, o Mário faz a união dos pensamentos de Platão e de Aristóteles, que deram espaço para abstrações indevidas, em que uns poderiam negar a existência das ideias “a priori” e outros o conhecimento a partir dos sentidos. Os dois lados estão certos, pois os dados dos sentidos despertam as ideias pré-existentes, fazendo-nos lembrar do que estava esquecido em nós. Um ponto importante, porém, é que o Mário não diz que ele foi o elaborador dessa união de pensamentos, nem que qualquer um de nós deveria criar uma filosofia que o fizesse, pois, antes mesmo de Platão e Aristóteles, Pitágoras já possuía um pensamento no qual essas duas realidades apareciam harmonizadas. Basta, portanto, retornarmos a esse pensamento.

sábado, 7 de maio de 2016

Evolução de uma civilização

"Segundo Huizinga, no curso da evolução ascendente de uma civilização, a representação artística através das imagens (pintura e escultura) se aperfeiçoa primeiro; em seguida vem a vez da que acontece através dos conceitos (Literatura). E no domínio das letras, é a poesia, isto é, a expressão ritmada do pensamento que se recita em voz alta, que constituiria o estágio primitivo. Quanto à leitura pelos olhos apenas, sem a participação da voz, tal qual nós praticamos em nossos dias, ela é uma invenção do século XV. É uma operação mental pura extremamente complexa, que vem coroar uma série de aprendizagens (leitura em voz alta, escrita), fazendo, portanto, intervir os circuitos cerebrais que controlam a visão, evidentemente, mas também a audição e ainda a motricidade da mão e da boca. Além do mais, a dislexia, distúrbio de leitura que confunde as letras, inverte as sílabas, etc., é tratada por vezes com sucesso pela reeducação da função da audição-fonação em musicoterapia ou somente pela lateralização da audição dominante à direita. Certamente, esses casos isolados são sempre discutíveis, tanto mais que a dislexia pode ser curada espontaneamente em aproximadamente 10% dos casos." 

Do livro Musique, intelligence et personnalité do neurocientista Dr. Mingh Dung Nghiem.

Tradução de Jelcimar Luiz Rouver Júnior

segunda-feira, 2 de maio de 2016

Para que estudar Português?

Quem não estuda Português tem mais tempo livre para se divertir, para conversar com os amigos, para conhecer novas pessoas, para assistir televisão, ir ao cinema, ouvir músicas ou simplesmente passear e viajar. Para essa pessoa não será necessário se afadigar com muitas leituras, se esforçar para absorver a linguagem difícil dos clássicos, para pegar o sentido das suas metáforas e figuras de linguagem, para compreender as regras gramaticais. Quem não estuda Português não precisa queimar os neurônios para entrar no mundo estranho dos grandes autores, que falam de mitos desconhecidos e experiências muito sutis, fazendo referências difíceis de captar.

Por outro lado, quem estuda o idioma pátrio, aprende a compreender melhor o que as pessoas próximas e distantes dizem, as notícias que circulam na sociedade, os livros que lê. Essa pessoa desenvolve a linguagem pessoal e se expressa com beleza e vivacidade, sem cometer erros de fala e equívocos que atrapalham a comunicação. Ela pode falar em público a pobres e a ricos, ao povo e à elite, sem medo de passar vergonha, pode participar de debates importantes e decidir os rumos da sociedade com sua contribuição; ela adquire maior poder de influenciar as pessoas e novos meios de ação, mais capacidade de se orientar na vida e de comunicar ideias, mais harmonia e estabilidade psíquica e uma personalidade mais desenvolvida. Quem estuda Português lê livros com referências a mitos e histórias insólitas e as compreende, estando mais consciente do que se passa. Quem estuda não se torna presa fácil de indivíduos mal intencionados, que querem manipulá-lo para que faça suas vontades. Quem estuda a Língua Portuguesa se torna capaz de contar para si mesmo a própria história de vida de maneira mais clara, organizada e precisa, se tornando mais autoconsciente, pois o idioma é um instrumento de conhecimento próprio. Por isso, para quem tem dúvidas sobre estudar ou não, a melhor escolha é o estudo.

Este texto é endereçado especialmente a alunos do Ensino Fundamental e Médio que não vêem motivos para estudar Português.

segunda-feira, 25 de abril de 2016

Leitura em voz alta: um exercício físico

1
Para quem deseje desenvolver a capacidade de dizer as coisas de modo claro, vigoroso, vivaz, harmonioso e desenvolto, acredito que o melhor a se fazer é ler muitos textos em voz alta, porque nesse tipo de leitura o leitor produz um fenômeno físico, o som, que entra pelos ouvidos e fica registrado na memória, diferentemente da leitura silenciosa, em que os sons das palavras são puramente imaginados. A leitura silenciosa é melhor para penetrar mais calmamente nos sentidos do texto, porque não há a preocupação com o esforço físico feito na leitura em voz alta. Esta, porém, grava mais inteiramente a forma das palavras e frases na memória do leitor.

2

A leitura em voz alta é extremamente prazerosa e produtiva. O problema é que ela cansa, diferentemente da leitura silenciosa, que pode ser feita de maneira ilimitada. A leitura em voz alta é um exercício físico.

Ação positiva e ação negativa

O sábio não é aquele que nunca intervém em nada, agindo sempre pelo não-agir, deixando a natureza seguir o seu curso, sem se importar para onde ela esteja indo. O sábio é aquele que intervém, interfere e age de diversas formas, inclusive se omitindo significativamente em certos momentos, de modo a produzir grandes efeitos. Em suma, o sábio não é o que nunca intervém, mas aquele que sabe combinar a intervenção e a omissão para conseguir os melhores resultados.

A obra literária e o seu potencial

1
A obra literária, quando cai na mente, não desperta de imediato idéias que possam ser afirmadas conceitualmente, como faz um texto científico em que os conceitos já aparecem prontos. Ela preenche a imaginação possibilitando que eles surjam depois. Em certos momentos, porém, ela produz insights preciosos no instante mesmo a leitura, abrindo novos horizontes de consciência e completando o que faltava para compreender certos conceitos já memorizados.
A imaginação é a porta de entrada da inteligência humana. Nela se reúnem os dados da experiência, que se organizam em imagens. Posteriormente essas imagens, se depuradas, tornam-se conceitos. Somente então é possível discorrer conceitualmente sobre um tema da obra literária. Esta é um símbolo que abre a inteligência para a compreensão de novos pedaços da realidade que não faziam parte desse microcosmo imperfeito.


2
Por isso, no início dos estudos, em que a absorção literária e artística predomina, o estudante pode ter a impressão de não ter feito muito progresso, porque não se sente capaz de enunciar conceitos e falar sobre muitas coisas, salvo relatar o que leu, viu e ouviu. Mas essa impressão de estagnação é falsa, porque ele está firmando as bases de um edifício intelectual que poderá ser grande. Ele precisa ter paciência e prosseguir na sua preparação.

3
Uma palavra não apresenta para o ouvinte todo o seu conteúdo de maneira instantânea, como um quadro que aparece inteiramente perante os olhos do observador. Para pintar o pensamento ao interlocutor, é necessário discorrer por cada parte.

4
A poesia se caracteriza por tentar dizer uma imensidão de coisas com o mínimo de palavras, contando com a habilidade do leitor de descriptografar as metáforas e versos, enquanto as outras modalidades de discurso procuram discorrer mais demoradamente sobre cada parte do pensamento. Sonetos e outros poemas são por natureza condensados de sentidos, mas nada é tão breve e tão abrangente como as sentenças dos sábios.

Música, estrutura mental, comportamento motor e ruídos infernais

1
Na Antiguidade, a música era uma criação dos deuses e tinha o poder de trazer equilíbrio e harmonia à pessoa, sintonizando-a com a ordem cósmica. Os antigos olhavam a música com uma forte ênfase moral e educacional, porque sabiam que ela agia de maneira marcante sobre esses aspectos do homem. Hoje, porém, as pessoas não têm o mesmo cuidado e se expõem a barulhos que certamente escandalizariam
gregos e romanos.


2
A audição é um ato físico operado pelo ouvido, mas submisso ao cérebro, de modo que se ouve os sons apresentados segundo a estrutura cerebral, ou seja, segundo à educação sonora recebida. A audição de uma pessoa se adapta à sua língua materna, conformando seu cérebro à arquitetura do idioma. Para certos fonemas de línguas desconhecidas, o ouvinte pode ser "surdo". Daí ser muitíssimo importante tomar cuidado com as músicas que as crianças escutam, uma vez que elas estruturam sua mente.

3
As músicas e os diversos sons que uma pessoa escuta influem sobre o seu comportamento motor. As crianças ouvem música e se movimentam conforme o ritmo. Os adultos também, mas às vezes podam a espontaneidade por motivos sociais.

4
Já de madrugada, lendo Mário Ferreira dos Santos, paro para prestar atenção no que se passa numa festa próxima da minha casa e percebo que o que ouço não é sequer música, mas uma sequência infernal e alucinante de barulhos horríveis, e isso não é uma figura de linguagem. Funk é o que existia tempos atrás. Hoje as pessoas se reúnem para se endoidecerem com ruídos incompreensíveis.

Ensino do Português e Cidadania

1
Ensinar Português para que os alunos sejam capazes apenas de ser bons cidadãos me parece um objetivo secundário, menor, se inserido na escala de possibilidades do aprendizado da língua. A linguagem serve para a ampliação e manutenção da consciência. Educar somente para a cidadania é conformar o aluno a uma sociedade determinada, enquanto educar para abri-lo a outras épocas e nações, à grande conversação dos sábios de todos os tempos e à realidade mesma, é fazê-lo superar a própria situação social imediata e abrir-se para o transcendente.

2
Cada estudante precisa se tornar capaz de transmitir e comunicar os seus pensamentos a outros membros da sociedade e ser hábil para ler e compreender os textos que circulam num país, mas isso não deve ser a aspiração máxima do ensino da língua, senão uma consequência inevitável da busca da consciência através da linguagem.

3
Um cidadão pode repetir lugares-comuns e clichês sem nenhuma correspondência com o real, mas úteis para a manutenção da sociedade em que vive, enquanto um homem que busca o mundo espiritual através da linguagem se libertará desses esquemas falseantes e aprenderá a dizer, na medida do possível, a realidade que vê com os próprios olhos.

4
O ser humano não conversa apenas com os outros seres humanos, seus concidadãos, mas consigo mesmo e com Deus, de modo que a linguagem serve para que ele se conheça a si mesmo e para a oração, uma vez que ela pode esclarecer a sua visão de si.

5
Segundo os Parâmetros Curriculares Nacionais, competência linguística é a capacidade de utilizar a "língua" de determinada comunidade, sem necessariamente ser a norma culta, ou seja, a variante linguística da comunidade pode conter erros gramaticais que o falante ainda é considerado linguisticamente competente.

O termo "comunidade" é significativo, porque não se trata de uma nação, mas de um grupo social determinado, seja classe, clube, bairro, etc. Um cidadão linguisticamente competente não é mais aquele que domina a língua nacional, mas que sabe utilizar as formas linguísticas de um grupo.

6
Se cada classe social tem a sua variedade linguística e não podemos ensinar uma só Gramática para todas, fica mais fortemente estabelecida a divisão. Em vez de eliminar as classes, esse modo de pensar as estabelece, em vez de desfazer as diferenças linguísticas, as enfatiza.

7
As regras gramaticais não são arbitrárias como muitos possam pensar, mas têm sua razão de ser na correta expressão do pensamento. Erros gramaticais são obstáculos à comunicação.

Conversação

Na conversação, a virtude máxima é a sobriedade. A conversação é uma grande oportunidade de estabelecer amizades, de comunicar ideias, de desenvolver a capacidade de expressar os pensamentos de maneira clara, seja quanto à dicção, seja na própria composição das frases. Não se deve fazer analogias forçadas, saltando de um assunto para outro através de ligações muito tênues. É preciso conversar sobre o que se fala, evitando o excesso, pois os outros interlocutores também querem participar. Não se deve perguntar coisas muito íntimas nem expor gratuitamente a própria vida. Brincadeiras e gracejos têm o seu lugar, mas devem ser utilizados com moderação, se o interlocutor der abertura. Ao se discordar de alguma ideia, é preciso fazê-lo com respeito e delicadeza e, quando se precisa interromper alguém que conta uma história por causa de uma necessidade urgente, deve-se despedir-se mostrando seu desagrado em partir e não poder ouvir o resto da conversa. 
Essas e outras dicas foram dadas por Mário Ferreira dos Santos no livro Práticas de Oratória, mas ele estava falando, evidentemente, de conversações em circunstâncias normais, entre pessoas respeitáveis, pois hoje em dia certas conversas só podem ser terminadas com palavrões e desaforos.

quarta-feira, 20 de abril de 2016

Energia psíquica, organização e vida intelectual

1
Há uma quantidade de força psíquica que nós podemos gastar nas tarefas diárias. Se tentarmos fazer muitas coisas, terminaremos o dia exaustos sem ter feito muito progresso, mas se estabelecermos um foco, planejando nossas ações, gastaremos nossas energias nas coisas certas e, no final, veremos que fizemos bastante. O pouco acabará sendo muito.

2
Não dá para fazer tudo num dia, num mês, num ano. É preciso deixar algumas coisas para o outro dia, outro mês, outro ano e até para a outra vida, porque quando alguém quer fazer tudo, então é que não faz nada.

3
Santo Tomás de Aquino produziu uma obra arquitetônica, mas no fim da vida reconheceu que aquilo não era nada perto do que ele agora entrevia. Ele entendeu que havia muita coisa por fazer e que não daria tempo. Teria que deixar para depois.

4
O trabalho intelectual gasta energia psíquica. Por isso a inteligência deve ser usada com moderação. Até certo ponto, a mente trabalha atentamente, mas as forças vão se esvaindo até o momento da desatenção total, quando a pessoa lê e não capta nada. Neste instante não adianta ler nem mais uma linha. É preciso repousar, não fazendo nada ou executando um trabalho manual.

5

Há pessoas que levam tão a sério o conselho de usar a inteligência com moderação que decidem jamais utilizá-la.

Musicoterapia e música de massa

A musicoterapia é uma prática terapêutica que usa a música para tratar os distúrbios dos pacientes, ressocializá-los, aumentar sua autoestima, resolver problemas relacionados à linguagem, etc.
Nas sessões de musicoterapia, o paciente pode se deparar com várias práticas, como a improvisação vocal e instrumental, a expressão corporal baseada na música que está ouvindo, a audição simples, a música de entrada e música de saída, que marcam o tempo próprio da terapia e ajudam a acalmar o paciente agitado, o canto e outras. 
A musicoterapia serve também para restabelecer laços familiares, restaurando a convivência entre os membros da família, uma vez que a música fornece um elo afetivo entre os indivíduos. 
Esta é uma área muito interessante, principalmente se considerarmos o terrorismo musical que as grandes indústrias de massa fazem, fornecendo mundialmente o mesmo lixo para ser consumido.

domingo, 17 de abril de 2016

Impeachment de Dilma Rousseff na Câmara dos Deputados ou O campeonato continua

Praça do Papa, 17/04/2016,  telões, trio elétrico,  muitas camisas do Brasil, bandeiras, expectativa, mas não eram as Olimpíadas, nem o Campeonato brasileiro, nem a Libertadores. Era, por incrível que pareça, a transmissão ao vivo, direto da Câmara dos Deputados, da votação do impeachment de Dilma Rousseff. A cada voto favorável ao processo, todos vibravam como num gol da seleção brasileira, a cada voto contra, vaias, como num arremate do adversário. Foi como uma disputa de pênaltis com 513 cobranças. Em todas elas, os olhos estavam atentos, fixos, vidrados. Até que o resultado saiu. E foi uma goleada: 367 a 137, com 7 bolas foras e 2 impossibilitados. Parece que esse era o "jogo" que o Brasil precisava ganhar, depois de ver sua alegria se esvair inclusive no embate nos campos. A partida acabou, mas não o campeonato. Precisamos prosseguir, sem parar, sem precipitar e sem retroceder. E que venha o Senado!

quarta-feira, 13 de abril de 2016

O impeachment vem aí

Dilma dizer que está confiante na sua vitória na Câmara é um blefe ou um sinal de desorientação total perante a realidade. Na primeira hipótese, ela está tentando aparentar segurança para conseguir reter a fuga dos últimos ratos apoiadores no navio naufragante. São as suas derradeiras bracejadas agonizantes. No segundo caso, ela simplesmente não consegue interpretar o significado dos últimos acontecimentos, como um comandante que fica no navio, não por honra, mas porque não sabe que está afundando. Seja qual for o pensamento dela, o impeachment vem aí.

Machado de Assis: a força da personalidade e a tradição familiar


1

Machado de Assis perdeu a mãe quando era muito novo, perdeu o pai quando tinha 12 anos, era pobre, gago, epilético, mulato numa sociedade escravocrata, não cursou a escola regularmente, começou a trabalhar cedo numa tipografia e se tornou um dos maiores escritores que o Brasil já teve. A sua grande virada literária se deu quando passou por um problema de saúde que quase o levou à morte. Depois disso, ele escreveu Memórias Póstumas de Brás Cubas, em que coloca um defunto autor para contar a história. Com essa obra, Machado transformou o romance brasileiro e não parou mais de escrever obras-primas. O Bruxo do Cosme Velho é uma prova enfática de que a personalidade é a maior força que o ser humano tem.

2

Se você olha para os seus pais e fala:
- Poxa, nunca serei um intelectual, porque meu pai é um pedreiro (ou gari ou o que quer que seja) e minha mãe é dona de casa.
Você nunca prestou atenção na vida de Machado de Assis, cujo pai era um pintor de paredes, filho de escravos alforriados, e cuja mãe uma lavadeira vinda dos Açores.

A tradição familiar é importante, mas mais decisivo é o esforço pessoal.